1 de jan de 2016

Economia Criativa é saída para desenvolvimento do Nordeste, diz economista



Por Paulo Dantas
Discípulo de Celso Furtado, economista Marcos Formiga analisa economia do nordeste, aponta equívocos no desenvolvimento, pede atenção ao capital humano e foco na economia criativa da região. Matéria da edição número 108



O professor Manuel Marcos Maciel Formiga é um pensador. Amigo e discípulo de Celso Furtado em suas teorias econômicas, Formiga tem uma longa história a frente do pensamento sobre educação e economia e um currículo extenso na área. Graduado e pós-graduado em Economia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e Política de Ciência e Tecnologia pela Universidade de Londres. Atua há décadas em áreas de Economia Regional e Educação Internacional, C&T, e Educação Aberta e à Distância. Dirigiu o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira
Manuel Marcos Maciel Formiga
(INEP),onde participou da concepção e implementação da “Escola do Futuro”, hoje referência internacional como laboratório de educação científica pelo uso de Tecnologias da Informação e da Comunicação. Além de atividades acadêmicas em Recife e Brasília, o estudioso também exerceu funções de direção nos Ministérios da Educação (CAPES e Secretaria Geral); Ciência e Tecnologia (CNPq e FINEP); e no Ministério da Integração Nacional, quando foi superintendente da Sudene e Secretário Nacional da SUDECO. Ainda foi Superintendente da Fundação Roberto entre 1994 e 1997, responsável pela equipe de elaboração do Telecurso 2000. De 1995 a 2011 foi vice-presidente da Associação Brasileira
Celso Furtado
de Educação a Distância (ABED) e, de março de 2003 a junho de 2011, assessor especial da Presidência da CNI, vinculado ao SENAI-DN, onde coordenou a iniciativa iNOVA Engenharia. Formiga é também um dos diretores do Centro Internacional Celso Furtado e se encontrou com a Revista NORDESTE para uma entrevista exclusiva sobre a região, perspectivas, vocações e desafios.
Revista NORDESTE: O ex-ministro Mangabeira Unger falou que o Nordeste deveria sair de uma ideia de desenvolvimento com grandes indústrias e grandes obras e pensar em um outro tipo de crescimento. O senhor concorda com essa visão?
Marcos Formiga: A visão de Mangabeira Unger é muito interessante porque ele tem repensado o Nordeste a partir das ideias de Celso Furtado. Ele é muito fiel ao pensamento do nosso Mestre maior. Agora, acho que essa é uma das alternativas, mas não é a única. Certamente, o modelo tradicional de desenvolvimento está esgotado. O Brasil adotou o modelo estruturalista de substituição de importação. O Nordeste replicou esse modelo, e, diga-se de passagem, com relativo sucesso. Estou me referindo ao período áureo da SUDENE, entre o final da década de cinquenta e a primeira metade da década seguinte,
Mangabeira Unger
quando o Nordeste teve um projeto de desenvolvimento. Depois se perdeu no tempo. Hoje, nós temos de conciliar algumas alternativas. Não sou adepto do modelo único. Ainda há espaço para grandes investimentos e há espaço para médios e pequenos investimentos. Sem duvida, as micro e as pequenas empresas, o empreendedorismo atomizado é fundamental em qualquer modelo de desenvolvimento.
NORDESTE: Qual seria o modelo?
Formiga: Prefiro um modelo blended, trabalhar com alternativas, sem exclusividade. E qual é o embasamento para esse pensamento? É que com o processo continuado e a desindustrialização do Brasil, certamente ou já chegou ou vai chegar, ao Nordeste. Nós temos que ter aí algumas alternativas e a que parece mais viável é a da Economia do Conhecimento, o imperativo do capital humano. Porque essa foi, e é, continua a ser, a nossa maior falha. Falha do Brasil e aqui no Nordeste mais do que duplicada. Descuidamos historicamente da formação, da educação e agora temos de refazer aquilo que não foi feito em bases mais difíceis do que anteriormente. A mudança estrutural aconteceu no Brasil e no Nordeste na medida em que deixamos de ser uma sociedade tipicamente rural para uma sociedade industrial. Esse modelo está esgotado ou em crise. Não temos de voltar a esse modelo antigo, mas sim buscar novas alternativas. 
NORDESTE: O que o senhor chama de capital humano?
Formiga: Chamaria de capital humano o ativo principal da Nação, conceito ligado diretamente a Sociedade do Conhecimento. Dentro da Sociedade do Conhecimento a ideia de economia criativa, onde se vão buscar indicadores muito mais focados em uma visão socioeconômica do que econômica-social, quando se dá ênfase no PIB, e na quantificação dos indicadores econômicos. Na minha observação, temos de reverter essa métrica.
Existem esforços internacionais nessa linha. Doutor Partha Dasgupta, professor emérito de Economia da Universidade de Cambridge, trabalhou para a Unesco um novo indicador. Saiu-se do ultrapassado conceito de renda per-capita criado a partir da II Grande Guerra, para o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) que leva em conta escolaridade, trabalho e esperança de vida. Do IDH avançamos para o novo conceito de riqueza inclusiva. Este leva em conta os ativos, ao invés de quantificar a renda, mensura-se a riqueza sob a forma de Capital Humana (nível educacional e cultural das pessoas), Capital Físico ou Construído (Maquinas, edificações, infraestrutura e etc.) e Capital Natural (recursos minerais, hídricos, fauna e flora). 

NORDESTE: Como assim?
Formiga: Os ativos são três, na concepção do Prof. Dasgupta, que a ONU ira adotar. Para se ter uma ideia do conceito de riqueza inclusiva, o PIB dos EUA quando eles fizeram o cálculo inicial em 1908, era de cerca de 10 trilhões de dólares. Com o conceito da riqueza inclusiva iria para 118 trilhões de dólares. O Japão, que é uma pequena ilha, aproximadamente do tamanho do estado de São Paulo, teria uma riqueza inclusiva muito maior que a dos EUA. E comparado com a China, atual segunda maior economia pelo velho indicador, utilizando o novo conceito, no entanto, o Japão chegaria a ultrapassar a China em 2,6 vezes. Isto significa uma revolução na qualificação e quantificação dos indicadores. Ficaríamos mais libertos da ditadura dos tradicionais indicadores econômicos, tais como taxa de inflação, taxa de desemprego e juros, porque tem vida mais inteligente em outros indicadores que estão vindo por aí e valorização de algo mais substantivo, como grau de escolaridade, longevidade de população, desenvolvimento tecnológico, prontidão para o futuro, etc.
NORDESTE: O senhor pode dar exemplos de economia do conhecimento já aplicadas no Nordeste?
Formiga: Sem dúvida. O Porto Digital em Pernambuco. Os serviços especializados
Porto Digital em Pernambuco
advindos do complexo petroquímico da Bahia. O esforço que o Ceará, o estado, e o município de Sobral estão fazendo na área de educação. Idem na capacitação profissional na região do porto de Itaqui em São Luís, MA. O projeto inicial em São Luís era qualificar 100 mil técnicos para atender as necessidades de demanda de capital e talento humano naquela região. Com a crise certamente esse volume de investimento teve alguma interrupção ou não está sendo totalmente implantado. Mas o efeito multiplicador já gerou uma correlação direta entre os investimentos e a necessidade de capital humano. O professor Mangabeira cita outro exemplo muito interessante da economia criativa da extração do mel da abelha no Piauí. Visitamos aquele projeto in loco. Aquelas caravanas constataram como funciona o Brasil profundo, a vida interior dessas regiões e o esforço das pessoas para sobreviver nas florestas e na caatinga do semiárido.
NORDESTE: O Nordeste é muito diverso...
Nordeste composto de vários nordestes.
Formiga: Um Nordeste composto de vários nordestes. Uns com forte sentimento de solidariedade regional e outros nordestes com pouco sentimento de regionalidade, o que é uma pena. Um Nordeste forte exige compromisso inalienável com todo território dessa região. Embora, dentre todas as regiões brasileiras, o Nordeste ainda salvaguarda o mais forte sentimento de regionalização.
NORDESTE: Quais são essas regiões dentro do Nordeste (com pouco sentimento de solidariedade regional)?
Formiga: O que mais caracteriza o Nordeste é o polígono que delimita o semiárido. Mas a Bahia pelo velho indicador tem o maior PIB do Nordeste, e também tem maior semiárido, mas apresenta baixo índice de nordestinidade, neste patamar encontra-se o Maranhão. Os dois extremos regionais se afastam um pouco do Nordeste core, o Nordeste mais profundo vai do Piauí até Sergipe. Um esforço de ação conjunta requer um realinhamento deste dois estados mais afastados.
NORDESTE: Quais seriam as soluções para o Nordeste?
Formiga: A primeira providência seria sair daquela velha fórmula da solução hídrica sempre tentada com bastante insucesso. Acumula-se água, mas não sabe ou não soube o que fazer com ela. Mas isso não significa que seja uma região pobre, muito pelo contrário. A proposito, lembro de um técnico israelense que serviu a Sudene que dizia o seguinte: “o nosso maior rio é o Jordão, que não passa de um ribeirão. Se nós tivéssemos o Rio São Francisco, seríamos uma potencia mundial”. Mesmo sem água, mesmo com um rio pequeno, como o Jordão, eles não são uma grande potência mundial do ponto de vista dos parâmetros tradicionais, mas pela Economia Criativa e do Conhecimento é uma das nações mais desenvolvidas do mundo, e isso se deve a duas coisas: educação de qualidade e altos investimentos em ciência e tecnologia. Israel é um dos países hoje com a mais alta taxa de investimento em ciência e tecnologia: 4,3% do PIB, enquanto o Brasil não consegue sair de 1,2%. Já estamos estagnados há algum tempo com esse percentual baixíssimo, incapaz de retirar o Brasil de uma situação critica em C&TI, fenômeno que se repete com mais gravidade na educação. 
NORDESTE: Falando em vocação, é possível elencar algumas vocações?
Formiga: Sim. O que é vocação regional? Juntar capacitação humana – mais uma vez a importância, o imperativo do capital humano, ponto critico ainda no Nordeste – e juntá-lo com a disponibilidade de capital natural, e serviços especializados. Obviamente, somando a tudo isso uma capacidade criadora, empreendedora e

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