19 de mai de 2017

AVALIAÇÃO ZOOTÉCNICA E FUNCIONAL EM GADO DE CORTE

Por Luiz Antonio Josahkian
(Fotos Bahia Red Sindhi)
Todo animal deixa vestígios do que ele foi. 
Só o homem deixa vestígios do que ele criou [...] 
O homem não é uma fi gura na paisagem. 
Ele é um modelador da paisagem. 
JACOB BRONOWSKI. 
The ascent of man (1973).
INTRODUÇÃO
Os processos produtivos em gado de corte são interativos entre a genética e o meio ambiente. Portanto, devemos nos alertar para o fato de que, na verdade, a produção animal fica diretamente
Luiz Antonio Josahkian
ligada à harmonização destes dois componentes. Na seleção de gado de corte é preciso perceber os animais como organismos vivos inseridos em um sistema de produção, do qual eles retiram energia e as transforma em produtos que serão consumidos. Compete, então, aos gestores desses sistemas de produção, intervir da melhor maneira possível, otimizando essa relação de troca do animal vs ambiente. O que nós temos, na verdade, no caso das raças bovinas de corte, é uma flexibilidade genética formidável que interage de diferentes maneiras com o meio ambiente, e esse é um desafio adicional para o selecionador: decidir, entre várias opções, qual o modelo mais adequado para o seu sistema de produção.
A seleção de gado de corte atual está equipada com um amplo ferramental. Modelos matemático-estatísticos avançados trabalhando com bases de dados corretas nos permitem conhecer com relativa precisão o valor genético do indivíduo para determinadas características, desde que elas sejam medidas e modeladas adequadamente. Entretanto, nem todas as características podem ser medidas nos animais. Algumas, por apresentarem relação custo × benefício desfavorável, para as quais os ganhos possíveis de serem alcançados não compensam sua mensuração. Outras, pela simples impossibilidade de medi-las, por não termos um instrumento que o faça, como por exemplo, a harmonia do conjunto do corpo do animal – uma característica complexa que não se encontra em nenhuma parte específica do corpo, mas que se traduz pela relação entre as partes. Outras características, ainda, são mais eficientes se medidas de forma indireta, como é o caso da precocidade sexual, para a qual medidas indicadoras e fáceis de serem obtidas – como o perímetro escrotal – se revelam muito eficientes. Por estas razões, as avaliações visuais de tipo dos animais ainda são consideradas fortes instrumentos complementares de seleção, além do que, durante muito tempo e ao
O que se busca são animais equilibrados
com o ambiente em que estão sendo criados.
longo dos milhares de anos de domesticação dos animais, foi a única ferramenta disponível para a humanidade. Utilizado desde o início do processo de domesticação dos animais, o olho humano é a mais antiga ferramenta de seleção de bovinos que atende às características desejadas pelo homem, não existindo nenhum instrumento capaz de ser tão integrador de informações obtidas através de imagens. Características morfológicas permitem uma leitura crítica dos tipos biológicos dos animais, que variam de ultra-precoces a extremamente tardios, lembrando que extremos não são desejados. O que se busca são animais equilibrados com o ambiente em que estão sendo criados. Assim, torna-se evidente que não existe um biótipo mais eficiente para todos os sistemas de produção, mas tipos morfológicos mais eficientes para diferentes ambientes. Neste capítulo será feita uma breve apresentação do uso das avaliações visuais como prática de seleção em gado de corte, como ferramenta complementar a todo instrumental atualmente disponível para monitoramento das mais diversas características dos animais. Um direcionamento mais incisivo será dado às raças zebuínas e aos métodos adotados para esta espécie (Bos-indicus).
PREPARANDO-SE PARA SER UM AVALIADOR
O processo de aquisição de conhecimento é formado por inúmeras relações de causa e efeito não lineares. Por exemplo, um selecionador com a capacidade de integrar informações chega à conclusão de que na seleção de machos a circunferência escrotal é realmente importante não pelo fato em si, mas porque ela está relacionada a uma melhor espermatogênese e a geração de fi lhos (pelo uso do touro) de melhor performance reprodutiva, tanto os machos quanto as fêmeas. A resultante deste tipo de raciocínio é muito diferente de um raciocínio cartesiano que admite, para toda consequência, uma única causa (ou pelo menos uma das mais importantes). Resultantes biológicas derivam de relações mais complexas e múltiplas. Por estas razões, as avaliações visuais precisam estar contextualizadas, caso contrário, perdem seu sentido técnico.A ciência, atualmente, deixou de ser a busca solitária típica das grandes e notáveis descobertas da humanidade. A pesquisa isolada está cada vez mais em desuso. O volume do conhecimento atual é gigantesco e requer equipes multidisciplinares, já que
Não há como negar que existe algo de pessoal,
subjetivo e imponderável na seleção...
ninguém é capaz de deter todo esse acervo de conhecimento sozinho. Essa concepção precisa ser empregada por um selecionador – e muito especialmente quando estamos adotando as avaliações visuais – porque estamos, em última análise, trabalhando com transformações dos recursos naturais. Não raro surgem questionamentos se a aplicação das avaliações visuais é ciência ou arte. Deste ponto de vista é interessante analisar se a seleção, em si, é uma ciência puramente ou um misto de ciência e aptidões pessoais não convencionalmente estabelecidas. A princípio parece que nós devemos concordar unanimemente que a seleção deva ser absolutamente aplicação de ciência, tal qual ela é dogmaticamente estabelecida. Porém, não há como negar que existe algo de pessoal, subjetivo e imponderável na seleção; e ainda, que ela não é absolutamente replicável. E nesse ponto pode surgir um questionamento: não deveria ser a seleção impessoal, científica e replicável? O mais provável é que não, embora não pareça ser possível responder com absoluta certeza a essa pergunta, mas realmente se espera de um bom selecionador que ele tenha algum meio disponível de conhecer os méritos genéticos, apesar de duvidoso, porque lida com características invisíveis ou imensuráveis. Cabe ao selecionador encontrar o equilíbrio perfeito entre o rigor científico (e sempre ser obediente a ele) e sua percepção pessoal da situação. É essa capacidade extra que o torna talentoso, diferenciado e capaz de mover culturas inteiras em diferentes sentidos, aumentando mais ainda sua responsabilidade. A situação da seleção em gado de corte é uma conjunção muito peculiar de análises críticas fundamentadas em bases científicas (parte objetiva) e a capacidade preditiva bem como de inferência do selecionador para prever situações futuras ou imaginadas (parte subjetiva). Olhar para trás e examinar o real ou realizado deve ser feito de forma objetiva/científica. Agora, usar isto para predizer o futuro e/ou onde e como usar cada tecnologia em um sistema de produção imaginário (futuro) para maximizar nosso objetivo, contém sempre um elemento imponderável e que pode apenas ser predito. Mesmo usando computadores e todo o acúmulo de informações, existe uma margem de erros e riscos, assim como ocorre nos mercados de capitais. Nenhuma metodologia é absolutamente perfeita para predizer valores, seja em que ramo da ciência estiver sendo usada. Todas contêm uma margem de erro e é preciso saber conviver com essa margem de insegurança. Não foi dada ao ser humano, em nenhum momento, a capacidade plena de prever o futuro.
UTILIZANDO AS AVALIAÇÕES VISUAIS
Na seleção de gado de corte é necessário analisar uma questão decisiva: com o que estamos trabalhando na seleção? Para esta pergunta o selecionador deve ter uma resposta entendida plenamente: embora usemos indicadores fenotípicos, selecionadores trabalham, na verdade, tentando identificar o valor ou mérito genético dos animais. A escolha deve recair, na seleção de gado de corte, naqueles animais que, se fossem abatidos produziriam a melhor carne, a mais suculenta, a mais saborosa, a mais rentável, a mais compatível com os anseios do mercado. Como estamos frente a um ser vivo, é necessário ainda que os animais apresentem sinais claros de vigor e mobilidade, indicando-nos claramente seu valor adaptativo. E para isso, o selecionador terá que utilizar todas as informações apresentadas, quer sejam elas métricas, tais como peso, altura, comprimento, medidas
Selecionadores trabalham, na verdade, tentando
identificar o valor ou mérito genético dos animais. 
obtidas por métodos de ultrassonografia etc; ou percebidas em dimensões diferentes e por indicadores até mesmo subjetivos, tais como os padrões étnicos, características que refletem a condição reprodutiva ou de equilíbrio e saúde. De forma muito particular, cabe ao selecionador conhecer o comportamento genético de cada uma das características que está considerando, dando a cada uma delas a devida importância no contexto de melhoramento genético. Não é uma tarefa fácil, já que confusões de toda ordem estão profusamente sendo apresentadas na seleção. Cabe ao selecionador remover o desconhecido e aproximar sua decisão, tanto quanto possível, de resultados que conduzam a uma estabilidade e segurança científicas. Essas definições determinam uma das regras fundamentais para aplicação das avaliações visuais: elas só podem ser adotadas com algum grau de eficiência em grupos de indivíduos que foram submetidos ao mesmo ambiente. Em melhoramento genético, este é um conceito muito conhecido, denominado de grupos de contemporâneos (GC). Os GC são formados, na prática, por indivíduos que pertencem ao mesmo grupo genético, do mesmo sexo, de idades semelhantes (nascidos em uma mesma estação) e submetidos, rigorosamente, aos mesmos manejos nutricional e sanitário. Olhar analiticamente para este grupo de indivíduos registrando as diferenças visualmente detectadas torna-se um método efi ciente porque as diferenças serão devidas, em maior grau, aos efeitos genéticos e não aos ambientais.
NOÇÕES DE EXTERIOR APLICADAS AOS BOVINOS
Para que possamos selecionar um animal e classificá-lo de acordo com a definição de raça ou com a sua finalidade zootécnica é necessário, basicamente, que tenhamos conhecimento das características da raça, segundo os padrões estabelecidos para elas e um conceito amplo do exterior desse animal, como representante do tipo que se tem em vista. Buscar o conhecimento profundo e aplicado dos conceitos de exterior é fundamental. Entretanto, isto pode ser feito recorrendo-se a materiais específicos, haja vista não ser o objetivo principal deste capítulo. Não obstante, vamos considerar somente alguns aspectos que merecem uma discussão mais específica para as avaliações visuais de tipo. Dentre eles, vamos ressaltar a

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